O zelo pela saúde bucal constitui um dos pilares iniciais do autocuidado desenvolvido ainda na infância. Incentivar hábitos como a escovação diária correta, o uso do fio dental, a aplicação consciente de enxaguantes bucais e a realização de consultas periódicas com profissionais de odontologia ou odontopediatria é fundamental. Essas práticas não apenas previnem doenças, mas também contribuem para a formação de indivíduos mais conscientes, independentes e responsáveis com a própria saúde e qualidade de vida ao longo do tempo.
O cuidado com a saúde bucal representa uma das primeiras e mais importantes lições de autocuidado aprendidas na infância. Promover a escovação regular, o uso adequado do fio dental, a utilização segura do enxaguante bucal e visita regular ao profissional qualificado em odontologia e/ou odontopediatria, é uma estratégia essencial para a formação de cidadãos mais saudáveis, autônomos e comprometidos com o bem-estar ao longo da vida1-2.
Contudo, as doenças bucais são comuns na população de várias partes do mundo e afetam a vida das pessoas, causando dor, desconforto e impacto na qualidade de vida, concentrando-se em populações mais desfavorecidas3.
Os principais resultados da Pesquisa Nacional de Saúde Bucal (SB Brasil 2023)4 incluem dados sobre a prevalência de doenças bucais, como cárie dentária (que segue sendo um problema relevante, afetando tanto a dentição decídua quanto a permanente), doenças periodontais e traumatismos dentários. Além de informações sobre a condição de oclusão dentária e a necessidade de próteses dentárias.
De acordo com o documento, a perda dentária é um dos piores desfechos de saúde bucal com consequências físicas e psicossociais na vida das pessoas. No grupo etário de 65 a 74 anos, a perda dentária continua sendo o grande problema, podendo resultar em limitações funcionais, tais como: dificuldades para comer, sorrir ou falar4.
As pessoas 60+ apresentaram uma média de 19,86 dentes perdidos e, mesmo quando dentes naturais foram mantidos, eles foram frequentemente acometidos por cárie dentária e doença periodontal. A perda total dos dentes foi observada em cerca de 36,48% da população idosa, uma prevalência superior à média global, estimada em 23% para indivíduos com 60 anos ou mais4.
Diante dos fatos de abrangência nacional e local, ao buscar na literatura novas evidências sobre diretrizes de prática clínica sobre higiene oral, com foco na qualidade, uma publicação de 20255 se destacou, pois adotou as principais bases de dados como PubMed, Scopus e Cochrane. E os principais achados mostraram que, de modo geral, isto é, as recomendações para diferentes faixas etárias - pediátrica, adulta e idosa – são:
- Escovas de dente elétricas não são significativamente superiores às escovas manuais na prevenção de cáries, embora possam reduzir a placa bacteriana;
- O risco de cárie dentária e doença periodontal é reduzido por meio de boas práticas em saúde como a redução do consumo de açúcar e a escovação dos dentes com creme dental com flúor, por no mínimo, duas vezes ao dia;
- Consultas a cada seis meses são recomendadas para crianças e adultos saudáveis. E na vigência do uso de próteses dentárias, a importância do cuidado diário em relação a higienização, retirada durante o sono e ajuste correto, são enfatizados;
- Para adultos, enxaguatórios bucais contendo clorexidina, fluoreto de sódio e óleos essenciais são recomendados por suas ações antibacterianas e anticáries, além de um efeito hidratante benéfico nas membranas mucosas, reduzindo efetivamente a placa bacteriana e a gengivite e consequentemente, a halitose. O cloreto de cetilpiridínio também é uma alternativa, mas não é tão eficaz quanto a clorexidina ou os óleos essenciais na redução significativa na formação de placa bacteriana e uma diminuição moderada da gengivite.
Baseado nos achados, podemos considerar que o controle mecânico do biofilme deve ser realizado pela escovação e uso de algum dispositivo de limpeza interdental. E o Guia de cuidado diário em saúde, da Sociedade Brasileira de Pesquisa Odontológica (2023)6, orienta as etapas essenciais da rotina de higiene bucal, que envolve 03 (três) passos:
1º passo: Escovação dos dentes com dentifrício fluoretado duas vezes ao dia, preferencialmente manhã e noite.
2º passo: Limpeza entre os dentes com fio/fita dental ou escovas interdentais diariamente;
3º passo: Uso de enxaguatórios bucais com comprovada ação antiplaça e antigengivite duas vezes ao dia (volume e tempo segundo princípios ativos).
REF: https://www.sbpqo.org.br/guiasaudebucal.asp
A indicação de uso enxaguatórios bucais ainda é uma narrativa de autocuidado em construção na literatura e nos guidelines e consensos6, assim como na prática clínica dentro do universo da odontologia e nos cuidados perioperatórios, porém já há indicações do uso de enxaguante bucal como parte de uma rotina padrão de higiene bucal e não deve ser usado como substituto da limpeza mecânica adequada dos dentes. Ou seja, de acordo com as conclusões das revisões sistemáticas disponíveis, os enxaguatórios bucais podem reduzir a placa supragengival e a inflamação gengival (gengivite) quando usados como adjuvantes aos cuidados pessoais referentes à higiene bucal. Contudo, há uma nota de atenção, de não recomendação ao uso de enxaguatórios bucais naturais ou alternativos disponíveis em lojas de produtos naturais, devido à ausência do conhecimento e rastreamento sobre segurança dos componentes envolvido nas formulações7-8.
Tais medidas são reforçadas e previstas na diretriz para a prática clínica odontológica na Atenção Primária à Saúde, do Ministério da Saúde9; onde indivíduos em tratamento da gengivite podem ser beneficiados com a indicação de antissépticos à base de óleos essenciais (com ou sem álcool) para períodos mais longos (>30 dias) e Clorexidina 0,12% (com ou sem álcool) para curtos períodos de tempo, especialmente aqueles não respondentes às abordagens mecânicas, com a finalidade de otimizar o controle de biofilme e da inflamação gengival.
A eficácia dos enxaguatórios bucais está relacionada ao seu potencial de redução do biofilme da placa bacteriana – traduzida de forma mais simples como “função antiplaca” - bem como à capacidade de mascarar/controlar a halitose. O modo de ação dos enxaguatórios bucais varia, dependendo de seus ingredientes ativos, concentrações, modo e frequência de uso7-8.
E uma dúvida comum e recorrente é sobre a faixa etária estes produtos podem ser indicados e utilizados; e eles não são indicados para crianças menores de 7 anos, pois é preciso que a criança saiba cuspir após fazer o bochecho. Isto é, a partir do momento em que a criança está apta a não engolir o enxaguatório, ela se torna candidata ao uso e para os indivíduos adultos, com boas funções motoras, cognitivas e de saúde, não existe restrição quanto à prescrição de enxaguatórios como medida de autocuidado6.
A Figura 1 apresenta a indicação, o tipo de formulação (com ou sem álcool) e a dose dos enxaguatórios bucais em relação à idade6.

A seguir, vamos trazer uma visão geral de evidências das funções adjuvantes dos enxaguatórios bucais, dentro da linha de cuidado/tratamento de doenças quanto das condições bucais; com destaque as formulações que contêm clorexidina, flúor, óleos essenciais, cloreto de cetilperidínio e peróxido de hidrogênio como ingredientes principais.
(a) redução na placa bacteriana com o uso diário de enxaguante bucal com clorexidina como adjuvante aos procedimentos de higiene bucal mecânica por 4 a 6 semanas, em comparação com a ausência de enxaguante bucal10.
(b) A clorexidina tem sido defendida como um agente anticárie devido à sua eficácia na redução dos níveis de Streptococcus mutans durante e após o uso11.
(c) Enxaguante bucal com clorexidina pode desempenhar um papel na redução dos níveis de bactérias causadoras de halitose3, assim como tem potencial como medida adjuvante para promover a cicatrização gengival, após procedimentos cirúrgicos12.
Sua eficácia está relacionada principalmente às suas propriedades antimicrobianas e anti-inflamatórias. Uma revisão sistemática que avaliou a eficácia dos enxaguatórios bucais com óleos essenciais relatou que eles são superiores ao placebo e ao controle mecânico da placa na redução da placa bacteriana e da inflamação gengival em pacientes com gengivite. As reduções na placa bacteriana e na gengivite foram, respectivamente, 32% e 24% maiores para óleos essenciais mais controle mecânico da placa15.
Outros achados clínicos apontam efeitos positivos e seguros dos óleos essenciais sobre estreptococos relacionados à cárie (principalmente Streptococcus mutans) e lactobacilos16, na prevenção e no tratamento da halitose16 e potenciais propriedades antivirais, o que indica um possível papel como enxaguatórios bucais pré-procedimento17.
Recentemente, durante a 42ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Pesquisa Odontológica (2025)18, foi apresentada uma revisão sistemática e meta-análise, composta por 26 estudos (20 ensaios clínicos randomizados e 6 não randomizados), que enfatizam os benefícios da inclusão dos enxaguatórios bucais com óleos essenciais nas rotinas de higiene bucal, como adjuvante no controle da gengivite e da placa, em comparação com a higiene mecânica isolada ou com enxaguante bucal placebo/controle.
No levantamento e análise dos dados da literatura foi observado que os participantes submetidos à escovação + fio dental + enxaguatório bucal com óleos essenciais apresentaram uma redução significativa no Índice Periodontal Máximo (IPM) em comparação com a escovação + fio dental isoladamente. E de modo similar, a rotina de uso de enxaguatório bucal com óleos essenciais, contribuiu para redução significativa tanto da placa bacteriana quanto de gengivite e sangramento gengival, em comparação ao grupo submetidos aos métodos mecânicos (escovação + fio dental).
O autocuidado pode ser compreendido como o conjunto de ações individuais, conscientes e intencionais, voltadas à manutenção da saúde, prevenção de agravos e melhoria da qualidade de vida24.
A relação entre autocuidado em saúde e uso de enxaguante bucal insere-se no contexto das práticas cotidianas de promoção e proteção da saúde e com um futuro promissor em novas abordagens tais como de direcionar a ação para bactérias patogênicas específicas, modular a resposta imune do hospedeiro ou até mesmo "equilibrar" o microbioma oral. Ressaltando que o enxaguante bucal não substitui a escovação e o uso do fio dental, mas pode atuar como recurso adjuvante no controle do biofilme dental 5-9.
Sob a perspectiva do autocuidado, o uso consciente do enxaguante bucal envolve1-5:
A incorporação dessas práticas desde a infância contribui para a formação de hábitos saudáveis duradouros. O aprendizado do cuidado com a boca, frequentemente mediado pela família e pela escola, constitui uma das primeiras experiências estruturadas de responsabilidade sobre o próprio corpo, fortalecendo a autonomia progressiva em saúde1-3,24.
Portanto, o uso de enxaguante bucal, quando orientado adequadamente, integra-se às estratégias de autocuidado em saúde como ferramenta complementar de prevenção, reforçando a importância da educação em saúde, da supervisão adulta na infância e do acompanhamento profissional contínuo.
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